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A imperdoável omissão do padre José de Anchieta
19 / 11 / 2008

Embora não negassem em absoluto a natureza divina de Jesus, muitos místicos dos séculos 14, 15 e 16 davam mais ênfase à sua humanidade. E, quando o contemplavam como homem, o que mais despertava a atenção deles não eram as demonstrações de sua glória e poder, mas o seu sofrimento e morte. Juliana de Norwich, uma das grandes místicas da história, nascida na Inglaterra em 1343, em seu livro “Dezesseis Revelações do Amor Divino”, que só foi publicado em 1670, descreve, por exemplo, o Jesus que ela viu numa de suas visões:

“Vi seu rosto querido, seco, exangue e pálido com a morte. Foi ficando mais pálido e sem vida. Então, morto, tornou-se azulado, mudando aos poucos para um azul amarronzado, à medida que a carne continuava a morrer (...) Era uma coisa triste vê-lo mudar enquanto morria pouco a pouco. Também as narinas murcharam e secaram diante de meus olhos, e seu corpo querido foi ficando negro e pardo ao secar na morte.”1

Um dos livros de espiritualidade cristã mais traduzidos e lidos, tanto por católicos como por protestantes, é o clássico “A Imitação de Cristo”, de Tomás de Kempis, monge alemão nascido por volta de 1379. Só no século 16 foram feitas mais de duzentas edições. Embora seja comprovadamente um livro de grande valor, gerador da verdadeira espiritualidade, “A Imitação de Cristo” acompanha o espírito da época, de centralizar tudo mais no Jesus homem do que no Jesus Deus. Segundo a historiadora Karen Armstrong, ex-freira católica, no livro de Tomás de Kempis, “o leitor é exortado a imaginar-se implorando às autoridades para salvar a vida de Cristo, sentado ao lado dele na prisão e beijando seus pés e mãos acorrentados”.2 O livro dá pouca ênfase à ressurreição do Senhor, um dos grandes pilares do cristianismo. (Vale a pena lembrar Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé”.)

Foi nesse ambiente que nasceu e cresceu José de Anchieta, espanhol da Ilha de Tenerife que veio para o Brasil como missionário da recém-fundada Companhia de Jesus, aqui chegando em 13 de julho de 1553, aos 19 anos, antes mesmo de ser ordenado padre. Um dos mais notáveis empreendimentos de Anchieta foi a elaboração do primeiro catecismo cristão do Brasil, conhecido como “Diálogo da Fé”. Beatificado em 1991 pelo papa João Paulo II e chamado de “O apóstolo do Brasil”, “O Xavier da América” e “O dramaturgo do Novo Mundo”, Anchieta era meio parente de Inácio de Loyola e tinha 12 anos quando Martinho Lutero morreu. O catecismo de Anchieta é bilíngüe (tupi e português) e foi escrito provavelmente em 1560, trinta anos depois da Confissão de Augsburgo (luterana), dois anos antes do Catecismo de Heidelberg (reformado) e seis anos antes do Catecismo Romano (publicado pelo papa Pio V).

Das 616 perguntas e respostas do “Diálogo da Fé”, 168 (mais de 25%) invocam os acontecimentos da Sexta-feira Santa, desde a saída de Jesus do Cenáculo até o seu sepultamento. Qualquer cristão reformado poderia pôr a sua assinatura embaixo dessas 168 respostas catequéticas, excetuando-se apenas aquela que diz que Maria teria coberto a nudez de Jesus com o seu véu, simplesmente porque esse detalhe não se acha em nenhum dos quatro Evangelhos.

O triste problema do primeiro catecismo cristão usado no Brasil é a imperdoável omissão da ressurreição de Jesus. Nada há sobre o túmulo vazio, sobre o terror que tomou conta dos guardas romanos, sobre a mensagem da ressurreição dada pelo anjo, sobre a surpresa das mulheres galiléias e dos apóstolos, sobre o abraço aos pés de Jesus e a adoração das mulheres, sobre a entrada de Pedro e João no sepulcro agora desocupado nem sobre as diferentes aparições de Jesus no espaço de quarenta dias, entre a ressurreição e a ascensão. No catecismo de Anchieta a história de Jesus termina no túmulo novo de José de Arimatéia, embora na última resposta se diga que “o Senhor se preparava para viver de novo”.3 Naturalmente, os leitores mais atenciosos perguntavam-se: “Ele só se preparou ou conseguiu de fato viver de novo?” Graças a essa desastrosa omissão, José de Anchieta não passou para os catecúmenos (o indígena que morava no Novo Mundo já há muito tempo, o colono europeu que chegou em 1500 e o escravo africano que atravessou o Atlântico a partir de 1539) o fato que dá sentido ao cristianismo e completa tudo o que aconteceu na Sexta-feira Santa.

Notas
1. “Uma História de Deus”, p. 275.
2. Idem, ibidem.
3. “Diálogo da Fé”, p. 193.
 
Fonte: Ultimato
 
  
 
 
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