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Nem tudo é sexta-feira
04 / 12 / 2008

No tumultuado século 16, a Igreja Católica fez muito mais pela evangelização dos povos do que a nascente Igreja Protestante. Enquanto a Companhia de Jesus enviava levas de missionários para o Oriente e o Ocidente, os protestantes só começaram a se despertar mais amplamente para missões trezentos anos mais tarde, a partir do século 19, depois da publicação do livro de 87 páginas escrito em 1792 pelo inglês William Carey, com o título “Investigação sobre a Obrigação dos Cristãos de Empregar Meios para a Conversão dos Pagãos”.

Todavia a evangelização do Novo Mundo foi prejudicada por causa do misticismo europeu que enxergava mais a cruz ensangüentada do que o túmulo vazio, mais a coroa de espinhos do que a coroa real, mais a desfiguração de Jesus do que a sua transfiguração, mais a sexta-feira do que o domingo. Os jovens missionários que deixavam pai e mãe na Espanha e em Portugal e atravessavam corajosamente o Atlântico por amor a Jesus foram contaminados pela cultura da época e a transportaram para cá. A maioria dos cristãos da América Latina continua sofrendo as conseqüências de uma evangelização deficitária, como se pode ver nas palavras do padre José Francisco Schimitt, 65 anos, mestre em teologia e professor do Colégio Marista São Luiz, em Jaraguá do Sul, SC:

Para muitos católicos, no seu imaginário religioso, a celebração mais importante da Semana Santa é a Procissão do Senhor Morto, na sexta-feira santa. Uma grande parte do nosso povo católico ainda não chegou à verdadeira compreensão de que o Tríduo Pascal da Paixão e da Ressurreição começa com a missa vespertina da Ceia do Senhor, possui o seu centro na Vigília Pascal e encerra-se com as vésperas do Domingo da Ressurreição.1

Dois incidentes comprovam o que o professor marista afirma. Numa sexta-feira santa, o professor Jaime Maia dos Santos, ao atravessar a cidade de Ervália, encontrou duas faixas estendidas de um lado ao outro da rua. Na primeira estava escrito: “‘Silêncio’! Estamos de luto”. A segunda explicava: “Jesus morreu!” Noutra sexta-feira santa, quatro missionários americanos batistas estavam hospedados num hotel de uma cidade bem no interior de Portugal. De repente, um deles, Lois McKinney, hoje professora na Faculdade Batista de São Paulo, foi ao piano e começou tocar o conhecido hino “Cristo já ressuscitou”. Os outros três puseram-se a cantar. Então a recepcionista do hotel fez sinal de silêncio e pediu-lhes para não cantarem naquele dia triste em que se recordava a morte de Jesus.

De todas as pessoas que têm chamado a atenção dos cristãos latino-americanos para essa miopia religiosa, a que mais se destaca é John A. Mackay, um escocês nascido em 1889 que conheceu profundamente a cultura ibero-americana, por ter vivido na Espanha (1915-1916), no Peru (1916-1925), no Uruguai (1926-1929) e no México (1930-1932).

No Peru, Mackay lecionou na Universidade Nacional de San Marcos, a mais antiga do hemisfério ocidental, e deu vida nova a uma pequena escola primária que veio a tornar-se o famoso Colégio Anglo-Peruano. Encerrado o seu trabalho missionário na América Latina, Mackay ocupou vários cargos de grande responsabilidade: foi presidente do Seminário Teológico Presbiteriano de Princeton, em Nova Jersey (1936-1959), do Conselho Missionário Mundial (1947-1957) e da Aliança Presbiteriana Mundial (1954-1959). Quando estava no México trabalhando com a Associação Cristã de Moços ele escreveu o livro “The Other Spanish Christ” (1932), traduzido para o espanhol apenas vinte anos mais tarde (“El Otro Cristo Español”).

Nessa obra clássica, recomendada pelo filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), John Mackay mostra que o Cristo que o catolicismo espanhol introduziu no continente é uma figura trágica. O outro Cristo, o Cristo espanhol, “se apresenta diante de nós como uma vítima trágica, ferido, morto e manchado de sangue, ninado nos braços de uma formosa franciscana, morto para sempre”.2

Cinqüenta anos depois da presença de John Mackay, missionário presbiteriano, no Peru, o sacerdote católico romano holandês Henri Nouwen fez uma visita ao mesmo país e anotou em seu diário:

Em lugar algum encontrei sinal de ressurreição, em lugar algum fui lembrado de que Cristo venceu o pecado e a morte, e ergueu-se vitorioso do túmulo. Tudo era sexta-feira da paixão. A páscoa estava ausente... A ênfase quase exclusiva no corpo torturado de Cristo me atinge como uma perversão das boas novas em uma história mórbida que intimida... as pessoas, mas não as liberta.3

Nouwen (1932-1996) é uma pessoa de peso: além de padre, psicólogo e escritor, ele foi professor das Universidades de Haward e Yale, nos Estados Unidos, e do Seminário Católico de Ontário, no Canadá.

Como se vê, a igreja brasileira precisa reparar da melhor maneira possível e com a maior urgência possível a herança deixada pelo catolicismo espanhol e português, ainda arraigada em muitos fiéis. Alguns olhos nunca estiveram fechados e outros já se abriram, mas ainda há muitos olhos para serem abertos. Essa tarefa cabe a todos nós, católicos e protestantes, sejamos históricos, carismáticos ou pentecostais. E tem que ser feita com humildade e muito amor.

Notas
1. “Ir ao Povo”, março de 2005, p. 9.
2. “John A. Mackay, Um Escocês com Alma Latina”, p. 83.
3. “A Bíblia Toda, O Ano Todo”, p. 251.
 
Fonte: Ultimato
 
  
 
 
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