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DEVOLVAM-ME O NATAL
Tão bom seria se a lucidez do Pr julio pudesse ser encontrad...

Fui roubado. Assaltado. Furtado. Traído. Enganado. Ludibriado no que me era mais sagrado. A capacidade de crer nas coisas simples do proceder Divino. Aviltaram meus sentimentos. Fui ferido na intimidade de minh’alma. Alem do escarne imposto as minhas convicções, zombaram das minhas reações. Dizem que é pueril, o meu lamento. Que preciso crescer. Deixar de ser criança. Progredir e aceitar as mudanças impostas a minha credulidade bíblica. Preciso me contextualizar. Enxergam-me como um estraga prazer. Um sujeito parado no tempo. Enquanto o tempo se escoa placidamente na ampulheta da vida. Sinto dores na alma. Compreendo a dor do profeta ao chorar “a minha ferida me dói e não admite cura... Jr 15:18. Grito por socorro e todos ao meu redor parecem surdos. Insensíveis. Zombam do exagerado valor que dou as minhas convicções. Afinal o que há de horror em aceitar a sociedade como ela se apresenta hoje?
Tento chamar a polícia. Mas esta está assoberbada com as loucuras desta época do ano. Não há como socorrer alguém que se sente ultrajado por algo tão “insignificante”. Adentro os templos. Talvez na Igreja encontre um resquício do que me foi tirado. Mas a Igreja compartilha do assalto. Cúmplice, que não mais reage às investidas dos larápios da verdade. Todos se apresentam insensíveis. Anestesiados pelas mudanças impostas pelo impostor.
Talvez consiga orar. Mas o barulho me impede a concentração. O buscar silente do encontro com o Senhor. Até parece que Deus não mais se importa com que fizeram do seu original projeto. Tudo foi modificado. O que era de graça, agora custa caro. Figuras estranhas substituíram a mensagem e o local original.
Quero a devolução do Natal de Jesus. Experimentar a mesma alegria que sentia ao comemorá-lo no passado, naquela igrejinha do interior. Não se trata de saudosismo. Mas sim de significados. Da verdade que foi substituída pela mentira. O Natal das minhas lembranças era diferente. Havia festa. Muita festa. Um galho de árvore servia como árvore de Natal. Não entendo o porquê da árvore no Natal. Em seus galhos não havia bolas coloridas. Nem guirlandas ou festões. Tampouco a figura horrenda de papai-noel. Não! Havia pequenos pacotes de balas que eram distribuídas às crianças e também aos que já não eram mais crianças. Após cada poesia ou a recitação de um versículo bíblico, a criança era premiada com algumas balas. Eram deliciosas. O culto simples encantava por sua espiritualidade. A alegria da salvação era contagiante.
Ninguém se preocupava em receber presentes sofisticados. O maior presente era Jesus no coração. Éramos desafiados a recebê-Lo. Nada de manjedoura iluminada. Figuras exóticas a compor o quadro inexistente, nem pensar. Todos sabiam o que era um estábulo. Nos estábulos não existem figuras. Apenas o mau cheiro do pecado que a todos envolve. Pecado imundo que Jesus veio remover, erradicar, com seu precioso sangue vertido na cruz. Sim! O Natal das minhas lembranças refletia a sombra de uma cruz. Vazia, mas com seu significado de sacrifício vicário oferecido a Deus em prol da humanidade. Isto ficava claro nas palavras do dirigente.
Hoje o Natal se apresenta com seus leiloeiros incansáveis. Irritantes. Agressivos a gritar: Compre! Compre! À venda estão carros importados. Geladeiras. Tvs com telas de plasma tridimensionais. Telefones que tudo realizam, inclusive a quebra do bom senso, quando tocam em pleno culto. Liga-se ao telefone e jamais a Deus. Não há tempo para adorar. Alguém pode chamar e o chamado do desconhecido é mais importante do que o culto que tento prestar ao Senhor.
Em todos os lugares aparece a horrenda figura do papai-noel. Alguns dançam. Outros sobem pelas janelas. Descem pelas chaminés inexistentes. Carregam enormes sacos de presentes que não são presentes. As crianças são induzidas a escrever-lhe uma cartinha. O correio entregará o presente desejado, caso alguém seja tocado pelo sentimento de comiseração. As pessoas se atropelam nas ruas. Empurram-se nas lojas. Correm para não chegar atrasadas à descida do papai-noel no hipermercado. O mundo gira em louca velocidade do consumismo, enquanto um repórter nervoso anuncia a crise, a derrocada do capitalismo. O governo não tem dinheiro para melhorar o atendimento à saúde, do já miserável trabalhador. Que não consegue crer no milagre do Natal. Mas tem-no para socorrer os banqueiros. Sem trabalhador se sobrevive. Basta um robô. Mas sem bancos e banqueiros o mundo acaba.
É Natal! Todos gritam. Consumam o máximo, pois assim o oásis da prosperidade será garantido. As pessoas estão cansadas de tanto correr. Nas Igrejas programas e mais programas se sobrepõem consumindo o tempo e a energia que deveriam ser gastos na comemoração do verdadeiro Natal.
Quero o meu Natal de volta. Com sua simplicidade. Com a alegria que lhe é peculiar a inundar a alma. Sem fogos. Sem dívidas. Sem prestações. Apenas Natal. Ouvir o canto dos anjos. Extasiar-me com a alegria e o louvor dos pastores. Nada levaram para ofertar. Apenas foram ver e voltaram glorificando a Deus pela providência da salvação. Chegaram de mãos vazias e retornaram com os corações cheios de esperança e gratidão. O que viram? Um menino deitado na manjedoura. Deus feito homem. Entrando na experiência humana para redimir a raça decaída em Adão. Deus que se esvazia para interagir em a natureza humana pecaminosa e redimi-la do pecado. A esperança concretizada. Esperança que crê contra a própria esperança. O amor de Deus declarado em linguagem que só o amor consegue decifrar. O mistério do amor. Inexplicável. Por favor, devolvam-me o Natal. Quero comemorá-lo mediante adoração simples. Genuflexo aos pés do Salvador. Com lágrimas de arrependimento ouvi-lo repetir: “A tua fé te salvou, vai-te em paz”.
Caso saiba onde está o meu Natal, devolva-me. Preciso voltar e me curvar ante os seus mistérios de amor. Expressar minha gratidão por tão grande salvação. Caso o encontre avise-me. Quem sabe? Poderemos juntos cultuar o Cristo do verdadeiro Natal. E junto repetir: FELIZ NATAL!

Pr. Júlio de Oliveira Sanches

17/12/08