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A CASA OFICINA

Dia dos pais a gente não pensa noutra coisa: o que fazer aos e com os filhos? Afinal, quem educa os nossos filhos? Essa é uma pergunta difícil e não há uma resposta pronta. Eu sei que você vai tentar me fazer lembrar de Provérbios: “Ensina o menino no caminho em que deve andar, e quando envelhecer não se desviará dele”. Só que tal recomendação foi dada a uma sociedade unitária, sem pluralidade, com apenas um norte e sentido. Uma só religião, ou quase. Não havia computador, internet, msn, orkut, twitter, grupos virtuais, blogs, televisão, escola formal, rua, patota, no pior dos casos gangs, e tudo o mais que faz parte dessa sopa líquida, onde tudo vai conforme o relevo, pra qualquer lado, ocupa qualquer espaço e toma a forma de qualquer coisa. Vale tudo. Não, naquele tempo não havia isso. Só havia o pai e a mãe. Só. Havia o pai que mandava o servo buscar a esposa pro filho, e não adianta olhar só a poesia, Rebeca vindo montada num camelo, porque tem muito mais. A primeira noite na tenda da mãe dele faria algumas sogras suspirarem fundo a demonstração de respeito e carinho, no desejo de que os tempos nunca tivessem mudado. Só que mudaram, e bota milhares de anos nisso. Os pais, no tempo dos camelos, não apenas orientavam, mas também mandavam, selavam o futuro, fosse abençoando ou não, fazendo casar o filho com quem desejassem.

Hoje a pergunta é: Quem educa os nossos filhos? No meu caso, gostaria que fosse apenas eu, mas não sou. Preciso me conscientizar de que não sou a única voz a ensiná-los, talvez apenas uma dentre tantas, e nem sempre a mais importante. Não adianta mandar alguém buscar-lhe uma futura esposa na beira de um poço. Ele vai olhar para mim com o sorriso do “lá vem conversa de velho”, sair pela porta e dali em diante achar que a vida é livre como se fosse infinita. Nem uma coisa, nem outra: nem livre, nem infinita; e para aprender onde fica esse tal limite vai passar por sofrimentos, erros e infelizmente nem sempre haverá retorno. Aí é vez do olhar triste do pai, sem sorriso, e o melancólico “você deveria ter escutado seu pai”. Só que já foi. Num lampejo você lamenta não ter prendido o filho dentro de casa, amarrado ao pé da cama. Só que não há mais tempo.

Tempos difíceis. Não há atalhos para superá-los, nem dá pra voltar pra época dos camelos. Daí é que entra o bom senso, a integridade da vida e os valores. Hoje não dá para ser um pai conceitual: faça isso e faça aquilo, aprenda isso e aprenda aquilo, olhando o enunciado como se fosse uma frase idealizada, escrita num quadro negro. Esse ensino tem o seu lugar,só que antes vem o que se é no relacionamento em casa, na amizade, companheirismo, humanidade, afetividade, fidelidade, hombridade, cordialidade, responsabilidade, seriedade, mansidão, capacidade de abertura ao diálogo, senso de justiça, e muita oração. Muita, mas muita mesmo. Um pouco mais do que você está pensando. Enquanto você conversa com Deus sobre os filhos, também fala de si.

É, o ensino só por conceitos lembra uma sala de aula. Acho que a casa deveria ser mais parecida com uma oficina. Na sala de aula ensinam-se idealizações, mas é na oficina que se faz a prática da vida. Casa-oficina: “Filho, é assim que se faz, olha aqui, bem aqui ó, tá vendo. É isso aqui desse jeito que você deve fazer. A vida tem que ser íntegra, olha aqui como ser uma pessoa íntegra. Ferramenta do amor na mão para ajustar a peça da paixão, completamente fora de eixo. Fio da justiça, de cobre nobre, para rebobinar o motor do movimento da existência, um fio de cada vez, em cada volta uma arte, caprichada, é assim que faz ó filho, a gente rebobina aqui, passa o fio por dentro e deixa bem justinho, é assim que se faz ó. Não, não é assim filho, vou ensinar você direito: pega lá a colher da fidelidade, hoje você vai aprender a chapiscar carinho, só que não pode ser de qualquer jeito, porque senão não gruda. É assim que faz ó, olha aqui, use esse tanto de força, tá vendo?, eu faço primeiro, olhe bem pra não errar, coloque água na medida certa, senão ou fica seco demais ou mole demais, daí não gruda, é assim que se faz ó. Viu como é que é? Não é difícil, basta praticar bastante. Com o tempo você tira de letra, filho. Você será honesto sem pensar, fiel quase como se fosse natural, íntegro a ponto de, quando alguém sugerir que você faça alguma coisa absurda, já sentirá repulsa antes de pensar na resposta. Você vai dizer “aprendi isso com o meu pai”, eu não irei escutar, mas estarei lá na sua memória. A melhor maneira de se lembrar de mim é praticar o que ensinei. Estarei feliz sem saber que estou feliz. Agora, isso você só vai entender direito quando for pai e tiver a sua própria oficina. Sentimento de pai não dá pra ensinar.”

É, não dá mesmo. Nem noutro canto será possível manusear, na prática, a arte do viver. Há ferramentas que só existem dentro de casa.

Pr. Natanael Gabriel da Silva

15/08/09